No site de apresentação, pode-se ler:
"Uma portaria da SEDH constituiu a comissão organizadora, composta por 32 pessoas. Essa Comissão é formada por representantes de ministérios, movimento GLBT e poder legislativo, e, entre outras atividades, elaborou o regimento interno da Conferência que subsidiará a elaboração dos regimentos estaduais".
Quem são os 32 eleitos? Como forma escolhidos? Qual foi o critério? Para que Regimento interno?
É para levar a sério? Parece coisa do TV Pirata: "Vamos tirar uma comissão, fazer regimento, eleger presidentes,..."
Em tempo: Todos nascemos cidadãos. O exercício da cidadania é que precisa ser garantido. Já está na hora de aprender e parar de escrever bobagens.
06 junho 2008
1ª Conferência Nacional GLBT
Por falar nela, a 1ª Conferência, todos as informações estão aqui. Esperemos que tratem seriamente do que deve ser tratado seriamente. As chances são poucas.
Casal
02 junho 2008
Reportagem

A reportagem de capa da Revista época, na semana de 2 a 8 de junho de 2008, trata de um casal gay no Exército.Não tenho certeza sobre a validade deste tipo de reportagem para a redução de preconceito e para o aumento da aceitação das relações homoafetivas por parcelas da sociedade que, tradicionalmente, mostraram-se mais reticentes no trato com este tipo de novidade.Penso até que o efeito é contrário.
Não sou padre, por quê: além da óbvia falta de vocação, embora tenha estudado em seminário e, em certo momento, tenha cogitado de seguir a carreira, a Igreja exige o celibato e condena a homossexualidade. O que faria eu nas entranhas de tal organização? Pelos mesmos motivos, estar no Exército nunca foi uma possibilidade em minha vida (claro que o celibato não se aplica aqui).
A reação do Exército (leia aqui), independentemente de ser correta ou não, é justa. As normas da instituição estão lá, se vc não as aceita, procure fazer parte de algo em que vc se encaixe.
E quando será que a imprensa vai entender a diferença entre gay e bichinha? Nenhuma homofobia internalizada aqui, nenhum preconceito. Só acho que é preciso tomar cuidado para não generalizar comportamentos, nem todos os gays se cobrem de jóias e acham que é preciso maquiagem diariamente.
Travesti: um mito que cai?

Reportagem publicada pela revista Época, retirada no sítio http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI4421-15228,00-POR+QUE+HOMENS+PROCURAM+TRAVESTIS.html, reproduzida aqui sem autorização do autor, Ivan Martins.
Mas a matéria é boa, ajuda a derrubar mitos e esclarece um pouco.
Por que homens procuram travestis?
Muitos parecem precisar de uma forma atenuada de sexo com outro homem. A ambiguidade dessa relação sugere muitas outras fantasias
Ivan Martins
CABEÇA ABERTA
Márcia, travesti de classe média paulistana. “Os homens que saem comigo são héteros que topam tudo”Mendes tem 37 anos, cabeça raspada e brinco na orelha direita. Pelos modos e pela aparência, o rapaz branco de família evangélica não se distingue de outros milhões de jovens paulistanos, exceto por uma particularidade importante: ele namora um travesti, Flávia. Os dois se conheceram há cinco anos no centro de São Paulo e, de lá para cá, constituem um casal. Na semana passada, sentado ao lado de Flávia na sala de um apartamento na Rua General Osório, Mendes explicava, em voz pausada, as bases da relação. “Nosso relacionamento é hétero”, afirma. Isso quer dizer que, no sexo, ele é a parte viril do casal, enquanto Flávia cumpre o papel de mulher. “Mas entre nós não existe só sexo. A gente tem amor e cuida um do outro.” Com cabelos negros e corpo esguio, Flávia ganha a vida se prostituindo nas ruas. Ele trabalha nas ruas como vendedor.
As palavras de Mendes revelam, sem explicar, um dos grandes mistérios da sexualidade moderna: a sedução exercida pelos travestis. Desde meados dos anos 70, quando despontaram nas esquinas das metrópoles brasileiras com saias minúsculas e seios exuberantes, essas criaturas híbridas conquistaram um espaço enorme no imaginário sexual do país. Todos os dias, milhares de homens se esgueiram por avenidas sombrias para comprar o prazer oferecido por seus corpos alterados. O risco envolvido nesse tipo de operação ficou claro há duas semanas, quando Ronaldo Nazário, o jogador de futebol mais famoso do mundo, transformou-se no protagonista de um escândalo que tinha como coadjuvantes três travestis do Rio de Janeiro. Ele foi com o grupo ao hotel Papillon e, durante a madrugada, desentendeu-se com um deles, Andréia Albertini. Acabaram todos na delegacia, de onde a história ganhou o mundo. A avalanche moral que desabou sobre Ronaldo a partir daí foi incapaz de responder à questão mais simples colocada pelo episódio: por que homens adultos e mesmo famosos arriscam segurança e reputação e vão atrás de travestis?
O antropólogo americano Don Kulick passou um ano vivendo com travestis em Salvador, sabe muito de seu cotidiano e mesmo de suas preferências íntimas. Mas não se arrisca a explicar quem são seus clientes. “Essa é uma grande incógnita. Embora acompanhasse os travestis todas as noites, não consegui distinguir um cliente típico”, diz. O livro de Kulick, professor da Universidade Nova York, sairá em português no fim deste mês, pela editora Fiocruz, com o título Travestis: Prostituição, Sexo, Gênero e Cultura no Brasil. Kulick conseguiu uma descrição razoavelmente rigorosa do que os fregueses exigem dos travestis. Durante um mês, pediu a cinco deles que registrassem o tipo de serviço prestado nas ruas. O resultado de 138 programas: em 52% dos casos os clientes queriam sodomizar, em 19% exigiam sexo oral, 18% queriam fazer aquilo que se costuma chamar de “troca-troca”, 9% pagaram para ser sodomizados e 2% para ser masturbados. “Não é insignificante que 27% dos homens nessa amostragem quisessem ser penetrados por travestis”, escreve s Kulick. “Mas esses homens não são maioria, como os travestis geralmente afirmam.”
‘‘Não é irrelevante que 27% dos homens da amostragem quisessem ser penetrados pelos travestis’’,DON KULICK, antropólogo americano
A confiar apenas no que dizem os travestis, o porcentual de seus clientes que se portam como homossexual passivo é alto. “Nove em cada dez homens querem ser penetrados”, diz Flávia, a namorada de Mendes. “Se o travesti não for bem-dotado e ativo, não ganha a vida na rua.” Exagero? Talvez. Assim como as prostitutas, os travestis têm uma relação antagônica com aqueles que pagam para usar seu corpo. Muitos não suportam exercer o papel viril que se exige deles na prostituição e o fazem com grande sofrimento, porque não encontram outra forma de ganhar a vida. Vingam-se dessa situação degradante com a mesma arma que a sociedade usa para humilhá-los: questionam a hombridade do freguês e o ridicularizam.
O psiquiatra Sérgio Almeida trabalha com travestis em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, e sua experiência corrobora em alguma medida a versão de Flávia. Cabe a Almeida a tarefa difícil de distinguir entre os travestis – definidos como homens que gostam de agir e sentir como mulher – e os transexuais, que se sentem mulheres aprisionadas em corpo masculino. Para estes, recomenda-se a cirurgia de troca de sexo. Para os travestis, ela equivale a uma mutilação e pode levar ao suicídio. Almeida gasta dois anos com cada paciente até decidir em que categoria ele se encaixa. “Desde 1997, fizemos 95 cirurgias e não tivemos nenhum problema”, afirma. O pós-operatório mostrou ao psiquiatra que ex-travestis são freqüentemente abandonados por seus parceiros quando perdem a anatomia masculina. E que os operados que insistem em continuar na prostituição perdem também a carteira de clientes. Algo de crucial desapareceu na cirurgia. “Não é verdade que os homens procuram travestis porque estes se parecem mulheres”, diz ele. “Eles querem o algo mais que as mulheres não têm.”
TRANGRESSÃO
Por que os homens arriscam sua honra e sua segurança nesse tipo de aventura sexual Os próprios envolvidos têm opiniões diferentes. Um leitor anônimo de epoca.com.br enviou depoimento no qual afirma, basicamente, que os travestis são a melhor opção sexoeconômica. Diz ele: “Já saí com vários travestis. O que me atraiu foi justamente o desejo físico pelos bumbuns e seios avantajados. Ficar com uma travesti para mim é conseguir a baixo preço uma mulher de porte e formas que eu jamais conseguiria pagar ou namorar”. Márcia, travesti paulista,repele qualquer tentativa de analisar os homens com quem sai voluntariamente. “Para mim, homens que saem com travestis são heterossexuais de cabeça aberta, que topam qualquer coisa”, afirma. Advogado, casado, pai de uma moça, diz que tem impulsos de vestir-se e agir como mulher desde criança, mas que isso nunca o impediu de ter relações normais com mulheres: “Quando saio com um homem, ele não importa. O que me interessa é reforçar minha identidade de mulher”.
O mistério em torno dos homens que procuram travestis é proporcional à ignorância que cerca os próprios travestis. Como grupo populacional, eles são escarçamente estudados: não se tem a menor idéia de quantos sejam, no mundo ou no Brasil. Os líderes das organizações de travestis estimam que haja 5 mil ou 6 mil deles no Rio de Janeiro e uma quantidade muito maior – fala-se em 30 mil – em São Paulo. Nenhuma ciência ampara essas estimativas. Sabe-se que há travestis de Porto Alegre a Manaus, inclusive em cidades pequenas. Tem-se a impressão, entre os que lidam com o assunto, que o Brasil é o líder mundial nessa categoria – e o principal exportador para os países europeus, sobretudo Itália e Espanha. “O Brasil tem a maior população mundial de travestis e o maior número de travestis per capita”, afirma Kulick. Trata-se de uma opinião bem informada, mas é apenas opinião. Líderes de organizações de travestis como Keila Simpson, presidente da Articulação Nacional de Travestis e Transexuais, querem que o censo inclua perguntas que permitam quantificar os diferentes grupos sexuais do país. “Como se pode dirigir políticas públicas a uma população de tamanho ignorado?”, diz.
A palavra-chave quando se trata de explicar a atração exercida pelos travestis parece ser ambigüidade. Eles são percebidos simultaneamente como homem e mulher, uma incongruência que mexe com as profundezas da psique humana. “O travesti mobiliza o desejo como mobiliza a repulsa”, afirma a psicanalista carioca Regina Navarro Lins. Outra psicanalista, Maria Rita Kehl, vê duas razões no fascínio pelos travestis. A primeira é que, por ser uma mulher com pênis, ele captura os restos das fantasias sexuais infantis. A outra está no fato de os travestis encarnarem a feminilidade de uma forma absoluta, que nenhuma mulher contemporânea aceitaria. “Só um travesti saberia ser tão feminino quanto quer a fantasia de alguns homens”, diz Maria Rita. “Se alguém sabe o que é ‘ser mulher de verdade’ (uma ficção masculina), é justamente o travesti.” Os próprios travestis são taxativos ao afirmar que seus fregueses procuram neles a diferença: a mulher com falo, a fantasia, o risco. “Transgressão é essencial. O proibido atrai”, afirma Marjorie, travesti com 20 anos de experiência nas ruas, que hoje trabalha na Secretaria de Assistência Social da Prefeitura do Rio de Janeiro. “As coisas que se dizem sobre os homens que saem com travestis são lendas machistas.”
Paira sobre essa discussão uma palavra que os psicanalistas detestam: patologia. Sim, as pessoas têm o direito inalienável de manter relações sexuais com quem quiserem, desde que haja consentimento mútuo. Posto isso, cabe a pergunta: está bem de cabeça um homem casado (como parece ser a maior parte dos clientes dos travestis) que abre a porta de seu carro na porta do Jockey Club, em São Paulo, e paga R$ 40 por uma hora de sexo com um homem que parece ser mulher? Os especialistas não têm uma resposta unânime a isso.
“Só um travesti saberia ser tão feminino quanto quer a fantasia de alguns homens”, diz uma psicanalista.
Liberais dizem que, bolas, desejo é desejo, e não se pode explicar ou reprimir. Há que aceitar. “Entendo que os homens que só se realizam sexualmente com travestis possam estar mal resolvidos em sua orientação sexual”, diz Maria Rita Kehl. “Mas considerar que todos os que gostam de travestis são homossexuais acovardados é uma redução preconceituosa.” Na outra ponta, fala-se em sofrimento e confusão por trás dessa forma específica de prazer. “Para alguns homens é patológico”, afirma o psicanalista Oswaldo Rodrigues, do Instituto Paulista de Sexualidade. “Muitos fazem isso num impulso de autodestruição.”
Há os incapazes de lidar com seu próprio desejo por outros homens. Há os que buscam cumprir seu “papel social” no corpo feminilizado dos travestis. Há de tudo, e nem tudo é a festa do desejo que a modernidade implicitamente recomenda. Onde está o limite? Na dor. De acordo com o psiquiatra Ronaldo Pamplona da Costa, com mais de 30 anos de experiência terapêutica, muitos homens que saem com travestis o procuram em estado de sofrimento. Eis o que diz a respeito a psiquiatra Carmita Helena Abdo, que coordena o Projeto de Sexualidade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo: “Se as pessoas fazem sexo responsável, não estão sofrendo e não me procuram, não quero normatizar a vida de ninguém”.
Adendo: A sabedoria do comentário da Dra. Carmita Helena Abdo é luminosa! Se não é um problema, não se o transforme em um!
17 maio 2008
Hard Gay
Um comediante japonês, absolutamente maluco, tenta convencer a fábrica de brinquedos a produzir uma versão gay, logicamente inspirada nele, do maior sucesso da fábrica. Abaixo, apenas a primeira parte. A segunda parte, inacreditável, vc pode procurar no youtube. Absolutamente hilário!!
Moby Dick
Ah! A Edição nova da Cosac Naif.... eu quero!!! Mas a questão é: há um relacionamento gay de Ismael com Quiqueg? Além de ler o livro, uma fonte pode ser o artigo do prof. Robert Martin, no site glbtq (link lá embaixo!), que vc pode ler aqui. Só não reproduzo porque é muito extenso, seis páginas. Vale a viagem!
16 maio 2008
Movimento Bear

Movimento bear, mercado, gênero. Americano, claro, mas reflete por aqui, de muitas formas. Ainda no site glbtq, que merece sempre a consulta. A foto, bom, a foto....
Antonio Cícero

ECO
A pele salgada daquele surfista
parece doce de leite condensado.
Como seu olhar, o mar é narcisista
e, na vista de um, o outro é espelhado;
e embora, quando ele dança sobre as cristas,
goste de atrair olhares extraviados
de banhistas distraídos ou artistas,
é claro que o mar é seu único amado.
Ei-lo molhado em pé na areia: folgado,
ao pôr-do-sol tem de um lado a prancha em riste
e usa do outro uma gata e um brinco e assiste
serenamente ao horizonte inflamado
e a brisa o alisa e enfim ele não resiste
à beleza e diz “sinistro!” e ouve eco ao lado.
[Do livro Guardar]
10 maio 2008
The Food of Love
I could never sing. In the grade-school operetta
I sat dark offstage and clattered coconut shells.
I was the cavalry coming, unmusical, lonely.
For five years I played the piano and metronome.
I read Deerslayer in small print while I waited for my lesson,
and threw up after the recital at the Leopold Hotel.
I went to a liberal college, but I never learned
how to sit on the floor or help the sweet folk song forward.
My partridge had lice, and its pear-tree had cut-worm blight.
Yes, this song is for you. In your childhood a clear falsetto,
now you sing along in the bars, naming old songs for me.
Even drunk. you chirrup; birds branch in your every voice.
It's for you, what I never sing. So i hope if ever
you reach, in the night, for a music that is not there
because you need food, or philosophy, or bail,
you'll remember to hear the noise that a man might make
if he were an amateur, clattering coconut shells,
if he were the cavalry, tone-deaf but on its way.
(Poema de William Dickey, em "Love Speaks its name - gay and lesbian love poems, p. 155)
I sat dark offstage and clattered coconut shells.
I was the cavalry coming, unmusical, lonely.
For five years I played the piano and metronome.
I read Deerslayer in small print while I waited for my lesson,
and threw up after the recital at the Leopold Hotel.
I went to a liberal college, but I never learned
how to sit on the floor or help the sweet folk song forward.
My partridge had lice, and its pear-tree had cut-worm blight.
Yes, this song is for you. In your childhood a clear falsetto,
now you sing along in the bars, naming old songs for me.
Even drunk. you chirrup; birds branch in your every voice.
It's for you, what I never sing. So i hope if ever
you reach, in the night, for a music that is not there
because you need food, or philosophy, or bail,
you'll remember to hear the noise that a man might make
if he were an amateur, clattering coconut shells,
if he were the cavalry, tone-deaf but on its way.
(Poema de William Dickey, em "Love Speaks its name - gay and lesbian love poems, p. 155)
03 maio 2008
Cena Espanhola

País que prova que é possível acompanhar os novos tempos, sem perder a personalidade!
União afetiva, previdência, leis sérias que protegem e não afagam, uma cena desprovida de preocupação com rótulos, enfim, o país quase ideal!Ah!! A Espanha!
Uma dica do teatro que anda por lá:O grupo Madrilenho Labirinto XXI (Laberinto XXI) é considerado pelos resenhistas e críticos como um vento de frescor na cena teatral espanhola.Sexo, irreverência, iconoclastia total....
02 maio 2008
Hector Tito Alvares

The Birth of the Political Angel
Oceans, as if space were
apples,
the scent of oranges,
marcos naked
fields and fields of clear grey-blue,
lilac on white.
the chalk
hills and breasts filled with milk
images, blue crystal in the snow,
indians in the snow
indians in the snow
bleached, clean flakes on the white linen (original Mind)
or paint/blood
applied with the grace of the greeks;
graceful lines in the snow
gay patterns in the sun's labyrinth
upright, green stems bleeding,
his firm thigh
in the sun
how men with men are one
my loving when
well, men are as flowers,
pebbles in the stream, not boulders
when pablo as
surrendering in the snow
flowing off the white pages
coming, buttermilk dripping on tissue paper
forfeiting muscles and metal teeth
balls and power, metallic balls
shining chrome in the snow
in the powdered universe of northern lights Mts.
and opening his warmth as if space were,
every pine were his.
latino, blond, and grey eyes tender
colored shells on the cuban sand, moist.
Breath,
as with marcos breathing gently;s ians
Indians in the Alps on the north country.
blue
coming, clear brooks
blocks of sparkling ice
Lorca, crying in the snow
(como un gallo)
stalactites and stalagmites
and phalloi carved out of cave walls
ancient space for living: sculpting, painting, fucking, thinking
ancient grace of brotherly embrace
in the blanched snow
in the snow
men loving men
as if your own bodies were space enough
"Oh, words and spices are for the dead, anyway!"
(1974)
26 abril 2008
25 abril 2008
Bear Parade
Nada não, apenas um video engraçado, com bears se divertindo em uma parada. A idéia de colocar 30 bears em uma banheiro é ótima!!
24 abril 2008
23 abril 2008
22 abril 2008
Frank O'Hara
Este video foi feito pouco antes da morte de Frank, em um acidente com um bug numa festa gay em Fire Island!!!
21 abril 2008
Entrevista com Italo Moriconi
Entrevistando Italo Moriconi
Italo Moriconi, 45 anos de idade, é poeta e professor de Literatura Brasileira e Comparada na UERJ. Começou a publicar poesia em 1972, no antigo Suplemento da Tribuna da Imprensa. Depois de formar-se em Ciências Sociais na UnRSLem 1975, transferiu-se para o Rio, onde participou ativamente dos movimentos culturais e políticos da época. Colaborou com vários órgãos da imprensa alternativa e foi um dos fundadores do jornal Beijo. Seus livros de poesia são: Léu (1988); A Cidade e as Ruas (1992) e Quase Sertão (1996). Sua tese de doutorado em Letras pela PUC foi publicada em livro com o título A Provocação Pós-Moderna (Ed. Diadorim, 1994). Em 1996, escreveu para a Relume Dumará e Secretaria Municipal o volume da Coleção Perfis do Rio sobre a poeta Ana Cristina Cesar. Nos últimos anos, tem publicado diversos ensaios sobre teoria estética e sobre poesia pós-modernista brasileira em periódicos universitários. Atualmente, prepara uma coletânea de ensaiossobre Caio Fernando Abreu, com a participação de representantes da mais nova geração de críticos universitários brasileiros e estrangeiros.
RSL: Proust, Rimbaud, Oscar Wilde... Como encara o fato de os maiores escritores de todos os tempos serem homossexuais?
Italo Moriconi - Não sei se todos os maiores escritores foram homossexuais. Os que vieram antes do século XIX, como Shakespeare e Platão, certamente ano eram homossexuais, embora mantivessem relações eróticas com outros homens. Pois, como Foucault mostrou em sua História da Sexualidade, o termo "homossexual" como definição de identidade de uma pessoa só apareceu no século passado, embora práticas homoeróticas e fenômenos de travestismo sejam inerentes à espécie humana. Seja como for, levando em conta que a categoria "homossexual" ainda é vigente como forma de classificar pessoas com base em suas preferências eróticas, se pegarmos os 3 escritores citados por você, pode-se observar que da vida de Rimbaud não se sabe o suficiente para garantir que todas as relações mantidas por ele na maturidade africana tenham sido relações homoeróticas. Quanto a Oscar Wilde, que provavelmente era o mais desmunhecado dos 3, não era homossexual, e sim, bissexual. Depois de ter sido vestido como uma menina pela mãe até a idade de 8 anos, Wilde cresceu, casou-se, fez filhos na esposa e, paralelamente, levou intensa vida de prazeres com prostitutos, marinheiros e jovens trabalhadores musculosos em geral, na animadíssima vida gay da Londres de final do século XIX, isso até se apaixonar por Lord Douglas. A grande dúvida que permanece é saber se Wilde era passivo ou ativo nas centenas de relações homoeróticas que manteve ao longo de seus longos anos de vida dupla. Tudo indica que ele alternava os papéis.
RSL- Há uma dicção costurando e caracterizando a cultura gay?
IM - Sim, há uma dicção gay. Eu citaria o escritor americano Edmund White como autor de uma obra exemplar dessa dicção. Oscar Wilde certamente é um precursor e também o Proust mencionado por você. Mas assim como a cultura gay tem inúmeras subculturas dentro dela, existe uma diversidade de dicções que se somam a essa dicção básica de White, Wilde e Proust. Como dicções gay alternativas, cito os exemplos de Jean Genet, Pasolini e, no cinema, Fassbinder e Derek Jarman, além do próprio Pasolini, que foi misto de escritor, cineasta e animal político. Pode-se também dizer que toda a cultura dos musicais hollywoodianos é gay, assim como a televisão, estimulando a atividade masturbatória livre de crianças abandonadas em seus quartos, instaura uma dicção gay (ou "queer" -- viada) ) na cultura de massas como uma das linguagens dominantes de nosso tempo. No Brasil, temos uma literatura gay, mas não sei se existe uma dicção gay, como na literatura anglo-saxônica.
RSL- Você concorda com Harold Bloom? De quais poetas fortes descende? É angustiado por alguma influência?
IM - Concordo com o que de Harold Bloom? Harold Bloom deve ter uns 12 a 15 livros publicados e idéias as mais variadas sobre os mais variados tópicos. Você se refere à teoria da ansiedade da influência, ou seja, ao Harold Bloom dos anos 70. Acho-a uma teoria super pertinente para ajudar a entender as relações entre gerações de poetas, mas acho-a também parcialmente furada por seu caráter anglocêntrico e falocêntrico. Minha angústia de influência se dá em relação a Drummond, Caetano Veloso, Ana Cristina Cesar e Cazuza. Tenho também uma angústia de influência em relação aos meus dois grandes mestres da PUC, o Costa Lima e o Silviano Santiago.
RSL- A metáfora e a linguagem conotativa não fazem mais um poema. É necessária alguma atualização dos conceitos ligados a linguagem poética? Esta atualização passa pelo conceito de modernidade e pós-modernidade?
IM - Não concordo com sua primeira frase, de que a metáfora e a conotação não fazem mais um poema. Podem até não fazer, mas colocar isso como um dogma não corresponde em nada à realidade atual. Alguns dos poetas mais jovens em circulação em várias culturas (conheço basicamente brasileiros, americanos e portugueses, um pouco de hispano-americanos) pelo contrário mostram a vitalidade do uso da metáfora como tática de arte verbal. Quanto à atualização de conceitos, é uma necessidade permanente. Desde o fim do Renascimento, nunca se passam 30 a 50 anos na cultura ocidental sem que haja uma necessidade de revolução conceitual. A revolução conceitual contemporânea já aconteceu e as discussões sobre pós-modernidade representam uma tentativa de pedagogizar, de popularizar essa revolução conceitual.
RSL- Hoje em dia o poeta novo fica, com a falta de movimentos literários, sem uniformidade e modelo. Tal fato é positivo ou negativo?
IM - Acho que é um fato. Positivas ou negativas são as reações ao fato. Minha reação é basicamente positiva, como seria positiva se o fato fosse outro. Não sou conservador, por isso minha tendência raramente é negar o presente em nome de um passado.
RSL- Você poderia fazer um panorama rápido da poesia brasileira atual. Em quais vertentes literárias estão os poetas atuais?
IM - A poesia dos anos 90 apresenta duas vertentes básicas. Uma vertente esteticista, representada por poetas como Carlito Azevedo, Claudia Roquette Pinto, Nelson Ascher, Josely Vianna Baptista, o Jorge Lúcio. De maneiras muito próprias, podem ser incluídos nessa vertente poetas como Paulo Henriques Britto e Lu Menezes. A outra vertente seria uma vertente neoconservadora, metafísica, representada por Alexei Bueno, Bruno Tolentino, Marco Lucchesi. Talvez Ivan Junqueira se encaixe desse lado. Paralelamente a isso, existe um aprofundamento e diversificação da vertente feminista/feminina, com a própria Claudia Roquette Pinto, Clara Góes e muitas outras. E como emergência temática marcante nesses anos 90, aparece a poesia gay, que é um belo rótulo, mas que eu prefiro chamar de homoerótica masculina. Nessa nova voz, incluo-me eu mesmo, e poetas como Antonio Cicero e Valdo Mota, mas nós 3 temos abordagens bem diferentes, que qualquer leitor poderá verificar por conta própria. Gosto também de poetas mais dionisíacos, como Waly Salomão, e das sensualérrimas Hilda Hilst e Olga Savary.
RSL- Você está na antologia da Heloísa. O que o qualificou para pertencer à obra?
IM - Esta seria uma pergunta que você deveria fazer à Heloísa. De qualquer modo, não acho que a participação numa antologia de contemporâneos tenha qualquer coisa a ver com sistemas escolares de "qualificação", doutoramentos, titulações e coisas assim. Como não sei fazer auto-propaganda chinfrim, devolvo a você a pergunta: o que, em sua opinião, me qualifica ou desqualifica para a antologia?
RSL- Há algo de positivo no fato de a crítica literária concentrar-se nos meios acadêmicos?
IM - Há algo de negativo?
RSL- Acho que sim. Não o fato em si, mas a crítica ficar restrita à universidade, convenhamos, é uma ação limitada ou não? ou apenas os escritores da trindade Uerj, Uff, Ufrj é que têm importância. Ao meu ver este fato é nefasto. Quando não há o diálogo, alguma coisa está errada. Não defendendo o Wilson Martins, pelo contrário, há só ele. O resto é resenha paga, entrevistas de escritores estrangeiros, fofoca, badalação...
IM - O problema não é a crítica ficar restrita à universidade, o problema é não haver no Brasil um tipo de imprensa cultural que faça a ponte entre universidade e público culto em geral. Nisso, a grande imprensa paulista é muito melhor que a carioca, particularmente a Folha. Pena que eles privilegiem a USP. Quanto aos escritores, não acredito que os preferidos da comunidade acadêmica sejam os únicos que apareçam, pelo contrário, a crítica universitária gosta de escritores sofisticados e complexos, como João Gilberto Noll, Zulmira Ribeiro Tavares, ou transgressivos, como Hilda Hilst e Caio Fernando Abreu, etc., e pouco se ocupa de escritores populares e que aparecem muito mais na imprensa, como João Ubaldo, Veríssimo, Jô Soares, etc. O exemplo dado por você, Wilson Martins, é bastante infeliz. Nada mais típico de uma certa universidade que Wilson Martins, que foi professor da New York University durante décadas e, depois de aposentado, passou a escrever essa coluna dele no Globo, uma coluna que eu não considero que seja uma coluna de crítica e sim uma crônica-resenha semanal. Não entendo sua colocação sobre resenha paga. Que as resenhas (inclusive no caso de Wilson Martins) substituíram a crítica literária na imprensa brasileira, não resta dúvida. Mas você deveria dizer: resenhas mal pagas. As resenhas que a imprensa publica são muito mal pagas, em matéria financeira. Resenhas são espaço publicitário, só que no campo da literatura publicidade é uma coisa muito mais complicada que no mercado maior. Sim, porque você pode querer fazer a publicidade de uma idéia, e de repente, uma resenha pode ser o espaço ideal para isso. Hoje em dia acho mortífero para uma pessoa interessada profissionalmente em literatura ficar fora, alheia ou antagônica em relação à universidade. Até a linguagem dessa pessoa vai ficar defasada e antiquada. Na medida em que a grande imprensa está fechada para debates intelectuais mais profundos ou extensos, o único lugar em que ainda existe um mínimo de vida inteligente e de paixão por idéias é a universidade mesmo.
RSL- Hoje mesmo, dia 12 de abril, O GLOBO publica uma matéria sobre o possível fim do livro. A internet será o carrasco da palavra no papel?
IM - Não sou futurólogo, portanto não posso produzir uma resposta para sua pergunta assim de estalo. Mas há bibliografia, e crescente, sobre o assunto. O último número do New York Review of Books traz um interessante artigo do Robert Darnton sobre o assunto. Outro que tem falado sobre isso é o Umberto Eco velho de guerra.
RSL- Você fez um perfil da escritora Ana Cristina César... O fato de ter falecido jovem potencializa a curiosidade sobre seus escritos. Alguns a acusam de plágio. Quem foi, quem é Ana Cristina César?
IM - Prefiro não responder à pergunta sobre quem é ou quem foi Ana C., pois, afinal contas, escrevi um livro sobre o assunto. A resposta está lá. Não existe plágio na escrita de Ana C. O que existe, conforme já demonstrado não apenas pelo meu, mas por vários livros e teses sobre a poeta, o que existe é um processo intenso de intertextualidade, apropriação, pastiche e parodia. Nisso, ela não inova em nada, apenas segue o modelo estabelecido por um dos poemas paradigmáticos da modernidade do século XX: "The Waste Land" ("Terra Desolada") de T. S. Eliot. Em meu livro, analiso as relações entre as poéticas de Ana e de Eliot.
RSL- Você tem um mote, alguma epígrafe que o acompanha pela vida. Qual? Fale um pouco sobre!
IM - Acho que não tenho. Desde criança sou um contumaz leitor de páginas e livros e jornais e revistas e um devorador de filmes e todos os demais tipos de mensagens. Diante de tal quantidade de informação não dá para escolher uma única frase e transformá-la em fetiche. Vivo em constante movimento, constante tumulto e exaltação mentais.
RSL- Qual o papel do escritor na sociedade?
IM - Existem diferentes tipos de escritores, que correspondem a diferentes visões de seu papel na sociedade. Minha fidelidade, minha paixão primeira se dirige àqueles que são indisciplinadores de almas. A definição é de Fernando Pessoa.
Italo Moriconi, 45 anos de idade, é poeta e professor de Literatura Brasileira e Comparada na UERJ. Começou a publicar poesia em 1972, no antigo Suplemento da Tribuna da Imprensa. Depois de formar-se em Ciências Sociais na UnRSLem 1975, transferiu-se para o Rio, onde participou ativamente dos movimentos culturais e políticos da época. Colaborou com vários órgãos da imprensa alternativa e foi um dos fundadores do jornal Beijo. Seus livros de poesia são: Léu (1988); A Cidade e as Ruas (1992) e Quase Sertão (1996). Sua tese de doutorado em Letras pela PUC foi publicada em livro com o título A Provocação Pós-Moderna (Ed. Diadorim, 1994). Em 1996, escreveu para a Relume Dumará e Secretaria Municipal o volume da Coleção Perfis do Rio sobre a poeta Ana Cristina Cesar. Nos últimos anos, tem publicado diversos ensaios sobre teoria estética e sobre poesia pós-modernista brasileira em periódicos universitários. Atualmente, prepara uma coletânea de ensaiossobre Caio Fernando Abreu, com a participação de representantes da mais nova geração de críticos universitários brasileiros e estrangeiros.
RSL: Proust, Rimbaud, Oscar Wilde... Como encara o fato de os maiores escritores de todos os tempos serem homossexuais?
Italo Moriconi - Não sei se todos os maiores escritores foram homossexuais. Os que vieram antes do século XIX, como Shakespeare e Platão, certamente ano eram homossexuais, embora mantivessem relações eróticas com outros homens. Pois, como Foucault mostrou em sua História da Sexualidade, o termo "homossexual" como definição de identidade de uma pessoa só apareceu no século passado, embora práticas homoeróticas e fenômenos de travestismo sejam inerentes à espécie humana. Seja como for, levando em conta que a categoria "homossexual" ainda é vigente como forma de classificar pessoas com base em suas preferências eróticas, se pegarmos os 3 escritores citados por você, pode-se observar que da vida de Rimbaud não se sabe o suficiente para garantir que todas as relações mantidas por ele na maturidade africana tenham sido relações homoeróticas. Quanto a Oscar Wilde, que provavelmente era o mais desmunhecado dos 3, não era homossexual, e sim, bissexual. Depois de ter sido vestido como uma menina pela mãe até a idade de 8 anos, Wilde cresceu, casou-se, fez filhos na esposa e, paralelamente, levou intensa vida de prazeres com prostitutos, marinheiros e jovens trabalhadores musculosos em geral, na animadíssima vida gay da Londres de final do século XIX, isso até se apaixonar por Lord Douglas. A grande dúvida que permanece é saber se Wilde era passivo ou ativo nas centenas de relações homoeróticas que manteve ao longo de seus longos anos de vida dupla. Tudo indica que ele alternava os papéis.
RSL- Há uma dicção costurando e caracterizando a cultura gay?
IM - Sim, há uma dicção gay. Eu citaria o escritor americano Edmund White como autor de uma obra exemplar dessa dicção. Oscar Wilde certamente é um precursor e também o Proust mencionado por você. Mas assim como a cultura gay tem inúmeras subculturas dentro dela, existe uma diversidade de dicções que se somam a essa dicção básica de White, Wilde e Proust. Como dicções gay alternativas, cito os exemplos de Jean Genet, Pasolini e, no cinema, Fassbinder e Derek Jarman, além do próprio Pasolini, que foi misto de escritor, cineasta e animal político. Pode-se também dizer que toda a cultura dos musicais hollywoodianos é gay, assim como a televisão, estimulando a atividade masturbatória livre de crianças abandonadas em seus quartos, instaura uma dicção gay (ou "queer" -- viada) ) na cultura de massas como uma das linguagens dominantes de nosso tempo. No Brasil, temos uma literatura gay, mas não sei se existe uma dicção gay, como na literatura anglo-saxônica.
RSL- Você concorda com Harold Bloom? De quais poetas fortes descende? É angustiado por alguma influência?
IM - Concordo com o que de Harold Bloom? Harold Bloom deve ter uns 12 a 15 livros publicados e idéias as mais variadas sobre os mais variados tópicos. Você se refere à teoria da ansiedade da influência, ou seja, ao Harold Bloom dos anos 70. Acho-a uma teoria super pertinente para ajudar a entender as relações entre gerações de poetas, mas acho-a também parcialmente furada por seu caráter anglocêntrico e falocêntrico. Minha angústia de influência se dá em relação a Drummond, Caetano Veloso, Ana Cristina Cesar e Cazuza. Tenho também uma angústia de influência em relação aos meus dois grandes mestres da PUC, o Costa Lima e o Silviano Santiago.
RSL- A metáfora e a linguagem conotativa não fazem mais um poema. É necessária alguma atualização dos conceitos ligados a linguagem poética? Esta atualização passa pelo conceito de modernidade e pós-modernidade?
IM - Não concordo com sua primeira frase, de que a metáfora e a conotação não fazem mais um poema. Podem até não fazer, mas colocar isso como um dogma não corresponde em nada à realidade atual. Alguns dos poetas mais jovens em circulação em várias culturas (conheço basicamente brasileiros, americanos e portugueses, um pouco de hispano-americanos) pelo contrário mostram a vitalidade do uso da metáfora como tática de arte verbal. Quanto à atualização de conceitos, é uma necessidade permanente. Desde o fim do Renascimento, nunca se passam 30 a 50 anos na cultura ocidental sem que haja uma necessidade de revolução conceitual. A revolução conceitual contemporânea já aconteceu e as discussões sobre pós-modernidade representam uma tentativa de pedagogizar, de popularizar essa revolução conceitual.
RSL- Hoje em dia o poeta novo fica, com a falta de movimentos literários, sem uniformidade e modelo. Tal fato é positivo ou negativo?
IM - Acho que é um fato. Positivas ou negativas são as reações ao fato. Minha reação é basicamente positiva, como seria positiva se o fato fosse outro. Não sou conservador, por isso minha tendência raramente é negar o presente em nome de um passado.
RSL- Você poderia fazer um panorama rápido da poesia brasileira atual. Em quais vertentes literárias estão os poetas atuais?
IM - A poesia dos anos 90 apresenta duas vertentes básicas. Uma vertente esteticista, representada por poetas como Carlito Azevedo, Claudia Roquette Pinto, Nelson Ascher, Josely Vianna Baptista, o Jorge Lúcio. De maneiras muito próprias, podem ser incluídos nessa vertente poetas como Paulo Henriques Britto e Lu Menezes. A outra vertente seria uma vertente neoconservadora, metafísica, representada por Alexei Bueno, Bruno Tolentino, Marco Lucchesi. Talvez Ivan Junqueira se encaixe desse lado. Paralelamente a isso, existe um aprofundamento e diversificação da vertente feminista/feminina, com a própria Claudia Roquette Pinto, Clara Góes e muitas outras. E como emergência temática marcante nesses anos 90, aparece a poesia gay, que é um belo rótulo, mas que eu prefiro chamar de homoerótica masculina. Nessa nova voz, incluo-me eu mesmo, e poetas como Antonio Cicero e Valdo Mota, mas nós 3 temos abordagens bem diferentes, que qualquer leitor poderá verificar por conta própria. Gosto também de poetas mais dionisíacos, como Waly Salomão, e das sensualérrimas Hilda Hilst e Olga Savary.
RSL- Você está na antologia da Heloísa. O que o qualificou para pertencer à obra?
IM - Esta seria uma pergunta que você deveria fazer à Heloísa. De qualquer modo, não acho que a participação numa antologia de contemporâneos tenha qualquer coisa a ver com sistemas escolares de "qualificação", doutoramentos, titulações e coisas assim. Como não sei fazer auto-propaganda chinfrim, devolvo a você a pergunta: o que, em sua opinião, me qualifica ou desqualifica para a antologia?
RSL- Há algo de positivo no fato de a crítica literária concentrar-se nos meios acadêmicos?
IM - Há algo de negativo?
RSL- Acho que sim. Não o fato em si, mas a crítica ficar restrita à universidade, convenhamos, é uma ação limitada ou não? ou apenas os escritores da trindade Uerj, Uff, Ufrj é que têm importância. Ao meu ver este fato é nefasto. Quando não há o diálogo, alguma coisa está errada. Não defendendo o Wilson Martins, pelo contrário, há só ele. O resto é resenha paga, entrevistas de escritores estrangeiros, fofoca, badalação...
IM - O problema não é a crítica ficar restrita à universidade, o problema é não haver no Brasil um tipo de imprensa cultural que faça a ponte entre universidade e público culto em geral. Nisso, a grande imprensa paulista é muito melhor que a carioca, particularmente a Folha. Pena que eles privilegiem a USP. Quanto aos escritores, não acredito que os preferidos da comunidade acadêmica sejam os únicos que apareçam, pelo contrário, a crítica universitária gosta de escritores sofisticados e complexos, como João Gilberto Noll, Zulmira Ribeiro Tavares, ou transgressivos, como Hilda Hilst e Caio Fernando Abreu, etc., e pouco se ocupa de escritores populares e que aparecem muito mais na imprensa, como João Ubaldo, Veríssimo, Jô Soares, etc. O exemplo dado por você, Wilson Martins, é bastante infeliz. Nada mais típico de uma certa universidade que Wilson Martins, que foi professor da New York University durante décadas e, depois de aposentado, passou a escrever essa coluna dele no Globo, uma coluna que eu não considero que seja uma coluna de crítica e sim uma crônica-resenha semanal. Não entendo sua colocação sobre resenha paga. Que as resenhas (inclusive no caso de Wilson Martins) substituíram a crítica literária na imprensa brasileira, não resta dúvida. Mas você deveria dizer: resenhas mal pagas. As resenhas que a imprensa publica são muito mal pagas, em matéria financeira. Resenhas são espaço publicitário, só que no campo da literatura publicidade é uma coisa muito mais complicada que no mercado maior. Sim, porque você pode querer fazer a publicidade de uma idéia, e de repente, uma resenha pode ser o espaço ideal para isso. Hoje em dia acho mortífero para uma pessoa interessada profissionalmente em literatura ficar fora, alheia ou antagônica em relação à universidade. Até a linguagem dessa pessoa vai ficar defasada e antiquada. Na medida em que a grande imprensa está fechada para debates intelectuais mais profundos ou extensos, o único lugar em que ainda existe um mínimo de vida inteligente e de paixão por idéias é a universidade mesmo.
RSL- Hoje mesmo, dia 12 de abril, O GLOBO publica uma matéria sobre o possível fim do livro. A internet será o carrasco da palavra no papel?
IM - Não sou futurólogo, portanto não posso produzir uma resposta para sua pergunta assim de estalo. Mas há bibliografia, e crescente, sobre o assunto. O último número do New York Review of Books traz um interessante artigo do Robert Darnton sobre o assunto. Outro que tem falado sobre isso é o Umberto Eco velho de guerra.
RSL- Você fez um perfil da escritora Ana Cristina César... O fato de ter falecido jovem potencializa a curiosidade sobre seus escritos. Alguns a acusam de plágio. Quem foi, quem é Ana Cristina César?
IM - Prefiro não responder à pergunta sobre quem é ou quem foi Ana C., pois, afinal contas, escrevi um livro sobre o assunto. A resposta está lá. Não existe plágio na escrita de Ana C. O que existe, conforme já demonstrado não apenas pelo meu, mas por vários livros e teses sobre a poeta, o que existe é um processo intenso de intertextualidade, apropriação, pastiche e parodia. Nisso, ela não inova em nada, apenas segue o modelo estabelecido por um dos poemas paradigmáticos da modernidade do século XX: "The Waste Land" ("Terra Desolada") de T. S. Eliot. Em meu livro, analiso as relações entre as poéticas de Ana e de Eliot.
RSL- Você tem um mote, alguma epígrafe que o acompanha pela vida. Qual? Fale um pouco sobre!
IM - Acho que não tenho. Desde criança sou um contumaz leitor de páginas e livros e jornais e revistas e um devorador de filmes e todos os demais tipos de mensagens. Diante de tal quantidade de informação não dá para escolher uma única frase e transformá-la em fetiche. Vivo em constante movimento, constante tumulto e exaltação mentais.
RSL- Qual o papel do escritor na sociedade?
IM - Existem diferentes tipos de escritores, que correspondem a diferentes visões de seu papel na sociedade. Minha fidelidade, minha paixão primeira se dirige àqueles que são indisciplinadores de almas. A definição é de Fernando Pessoa.
08 abril 2008
Exposição

Entre Amigos & Amores – os
espaços de socialização GLS do Rio
Fotografias de Pedro Stephan
Explorando espaços públicos e privados, o fotógrafo especializado na temática homossexual, Pedro Stephan, compõe um painel realístico e atual do cenário GLBTT do Rio de Janeiro, fotografando a pluralidade dentro de um segmento social estigmatizado.
As imagens percorrem a ampla gama de estilos de vida e comportamento, que algumas vezes passam desapercebidos aos olhos da sociedade. Indo da zona norte à zona sul, dos lugares elitizados aos mais populares e com público de todas as idades, “Entre amigos & Amores” é um convite à reflexão sobre a temática homossexual cada dia mais presente no cotidiano brasileiro.
A idéia da exposição nasceu da vontade de Stephan revelar ao grande publico que o segmento GLBTT é composto por pessoas que, como quaisquer outras, querem se socializar, fazer amigos e encontrar seus pares. “Procurei retratar os espaços não só na sua forma ‘real’, mas também captar a atmosfera dos locais e os sentimentos das pessoas”, conta o fotógrafo. “Quero contribuir para desfazer os estigmas que pairam sobre os gays”.
Para a acadêmica e produtora cultural Heloísa Buarque de Hollanda, Stephan é pioneiro na fotografia etnográfico-poética urbana brasileira de acento ativista. "Nesta exposição, seu mais recente trabalho, ele faz o mapeamento geopolítico dos espaços de socialização da comunidade homossexual carioca", analisa.
"Este trabalho pioneiro é o resultado de uma pesquisa realizada ao longo de vários meses, tornando-se de grande importância como estudo antropológico de uma minoria estigmatizada e alvo de preconceitos e deboches", comenta o fotógrafo e curador da exposição Andreas Valentin.
A exposição fotográfica multimídia se originou de mais de 100 fotos, de ensaios realizados em diferentes espaços de socialização GLS no Rio. Particiou dos maiores festivais de foto do país – FotoRio 2007, FotoArteBrasília 2007 e FestFotoPoa 2008. É um retrato vivo e atual da sociedade carioca em mais uma de suas facetas.
O coquetel de abertura acontece dia 17 de março às 19h, com leitura de poemas relacionados ao tema feito pelos artistas Antônio Cícero, Jean Wyllys e Danni Carlos.
Sobre o fotógrafo
O carioca Pedro Stephan é conhecido fotógrafo e jornalista da imprensa especializada gay no Brasil e no exterior. Seus ensaios foram publicados nas mais importantes revistas internacionais como a francesa “Tetu Magazine”, editada pelo estilista Yves Saint Laurent; nas alemãs “AK Magazine”, “Siegessaeule” e “Du und Ich”; e nas norte-americanas “Circuit Noize” e “La Vida.”, entre outras.
Contribuiu para importantes trabalhos institucionais como os cartazes da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo de 2004 e a Campanha de Prevenção à AIDS organizada pelo Grupo militante Arco-Íris e patrocinada pelo Ministério da Saúde e pela UNESCO. Atualmente vem se dedicando a um trabalho de documentarismo antropológico, fotografando os diversos aspectos da cultura homossexual brasileira, além do processo de emancipação homossexual, que talvez seja a grande conquista civil e democrática desta década.
Entre Amigos & Amores – os espaços de socialização GLS do Rio
Exposição fotográfica multimídia de Pedro Stephan
Texto: Heloísa Buarque de Hollanda
Curadoria: Andreas Valentin
Produção: Rodolfo Abreu
Período: 18/03/2008 a 27/04/2008
Galerias do 1º andar
Visitação: de terça a domingo
das 12h às 19h
Entrada Franca
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